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O que é manobra de heimlich

A manobra de Heimlich é uma técnica de primeiros socorros utilizada para desobstruir as vias aéreas de uma pessoa que está engasgada com algum objeto ou alimento. Desenvolvida pelo médico americano Henry Heimlich na década de 1970, ela consiste na aplicação de compressões abdominais rápidas e precisas, capazes de gerar pressão suficiente para expulsar o corpo estranho e restaurar a respiração. Quando executada corretamente, pode ser a diferença entre a vida e a morte em questão de segundos.

Apesar de parecer simples à primeira vista, a técnica exige conhecimento sobre posicionamento das mãos, força adequada e adaptações para diferentes perfis de vítima — lactentes, gestantes, obesos e pacientes inconscientes demandam abordagens distintas. Executar a manobra de forma errada pode causar fraturas de costelas, lesões em órgãos internos ou simplesmente não resolver a obstrução, agravando ainda mais a situação.

Para profissionais de saúde, bombeiros, cuidadores e qualquer pessoa que atue em ambientes de risco, dominar esse procedimento vai muito além de assistir a um vídeo: requer treino prático supervisionado, com simulações realísticas que desenvolvem o reflexo e a segurança necessários para agir sob pressão. É exatamente esse tipo de preparo que separa quem conhece a técnica de quem realmente sabe aplicá-la quando mais importa.

O que é a Manobra de Heimlich?

A Manobra de Heimlich, também chamada de compressão abdominal (ou compressão torácica, em situações específicas), é uma técnica de primeiros socorros usada para desobstruir as vias aéreas de uma pessoa engasgada por corpo estranho — em geral, um pedaço de alimento, prótese dentária, brinquedo ou pequeno objeto. O princípio é simples e eficaz: ao aplicar uma pressão rápida e firme logo abaixo do diafragma, o socorrista provoca um aumento brusco da pressão intratorácica, simulando uma tosse forçada capaz de expelir aquilo que bloqueia a passagem do ar.

Trata-se de um dos procedimentos mais difundidos no mundo dentro do Suporte Básico de Vida (BLS) e dos protocolos de primeiros socorros da American Heart Association (AHA), do PHTLS e da Portaria 2048 do Ministério da Saúde. Executá-la corretamente pode representar a diferença entre a vida e a morte em poucos minutos, já que a obstrução total das vias aéreas leva à parada cardiorrespiratória em cerca de 4 a 6 minutos.

Para que serve e quando usar a Manobra de Heimlich

A técnica destina-se exclusivamente aos casos de Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE) em situações graves, ou seja, quando a vítima não consegue mais tossir, falar ou respirar adequadamente. Não deve ser aplicada em engasgos leves, em que a tosse espontânea ainda é capaz de expulsar o objeto — nesses casos, o socorrista deve apenas estimular a tosse e permanecer atento.

Está indicada sobretudo em situações como: engasgos com alimentos sólidos (carne, pão, frutas), engasgos com líquidos em pessoas com disfagia, aspiração de objetos pequenos por crianças e em qualquer cenário em que a via aérea esteja parcial ou totalmente bloqueada e a vítima permaneça consciente.

Como identificar um engasgo grave (sinais de alerta)

Reconhecer rapidamente um engasgo grave é o primeiro passo para salvar uma vida. Os principais sinais são:

  • Sinal universal do engasgo: a vítima leva as duas mãos ao pescoço, em formato de “V” invertido;
  • Incapacidade de falar, tossir ou emitir sons;
  • Respiração ruidosa, com chiado (estridor) ou totalmente ausente;
  • Cianose: lábios, pontas dos dedos e face ficando azulados ou arroxeados;
  • Olhos arregalados e expressão de pânico;
  • Perda progressiva da consciência caso a obstrução não seja resolvida.

Diante desses indícios, o socorrista deve perguntar diretamente: “Você está engasgado? Consegue falar?”. Se a vítima não responder verbalmente e apenas balançar a cabeça, trata-se de obstrução grave — é hora de agir imediatamente.

Como fazer a Manobra de Heimlich em adultos e crianças acima de 1 ano

Em vítimas conscientes maiores de 1 ano, a técnica clássica de compressões abdominais é o padrão recomendado pela AHA e pelos demais protocolos internacionais. Antes de iniciar, peça a alguém para acionar o SAMU (192) — ou faça isso você mesmo, se estiver sozinho com a vítima.

Posicionamento correto das mãos

Coloque-se atrás da vítima, com um pé entre os pés dela e o outro um pouco recuado, garantindo equilíbrio caso ela desmaie. Passe os dois braços ao redor do abdome. Localize o umbigo com uma das mãos e o apêndice xifoide (ponta inferior do esterno) com a outra — a região correta de compressão fica na linha média do abdome, entre o umbigo e o apêndice xifoide, na chamada “boca do estômago”.

Feche uma das mãos em punho, com o polegar voltado para o abdome da vítima (e não para cima, a fim de evitar lesões nas costelas). Apoie a outra mão sobre esse punho, mantendo os cotovelos afastados do gradil costal.

Passo a passo das compressões abdominais

  1. Realize uma compressão firme para dentro e para cima, em movimento em “J”, como se quisesse erguer a vítima do chão;
  2. Cada compressão deve ser distinta, vigorosa e independente, com a intenção clara de expulsar o objeto;
  3. Repita as compressões até que o corpo estranho seja expelido, a vítima volte a respirar ou tossir, ou perca a consciência;
  4. Se ela desmaiar, deite-a cuidadosamente no chão e inicie a RCP (reanimação cardiopulmonar), checando a boca antes de cada ventilação para verificar se o objeto se deslocou.

Combinação com golpes nas costas (técnica atualizada)

As orientações mais recentes — incluindo as Diretrizes AHA 2025 e os protocolos europeus do ERC — recomendam, em muitos cenários, a associação de 5 golpes nas costas (interescapulares) alternados com 5 compressões abdominais em adultos e crianças. Os golpes são desferidos com a base da mão, entre as escápulas, com a vítima ligeiramente inclinada para frente, ajudando a deslocar o corpo estranho pela ação da gravidade somada ao impacto. Essa abordagem aumenta a chance de desobstrução, sobretudo em vítimas grandes ou quando a compressão abdominal isolada não basta. A atualização é discutida em profundidade no curso de APH com certificação internacional da 22Brasil.

Como fazer a Manobra de Heimlich em bebês (menores de 1 ano)

Por que bebês exigem técnica diferente

Em bebês com menos de 1 ano, nunca se aplicam compressões abdominais tradicionais. A musculatura abdominal ainda é frágil, os órgãos internos (especialmente o fígado) são proporcionalmente maiores e mais expostos, e a pressão sobre essa região pode causar lesões graves, como ruptura hepática ou esplênica. Por isso, a abordagem é substituída pela combinação de golpes nas costas e compressões torácicas.

Passo a passo: golpes nas costas e compressões no tórax em bebês

  1. Coloque o bebê em decúbito ventral (de bruços) sobre o seu antebraço, com a cabeça mais baixa que o tronco. Apoie a cabeça pela mandíbula, sem comprimir a garganta;
  2. Sustente o antebraço sobre a coxa para maior estabilidade;
  3. Aplique 5 golpes firmes nas costas, entre as escápulas, usando a base da mão;
  4. Vire o bebê em bloco para decúbito dorsal (de barriga para cima), mantendo a cabeça mais baixa que o tronco;
  5. Localize a metade inferior do esterno, logo abaixo da linha intermamilar, e aplique 5 compressões torácicas com dois dedos (indicador e médio), com cerca de 4 cm de profundidade;
  6. Repita o ciclo de 5 golpes nas costas + 5 compressões torácicas até a desobstrução ou a perda de consciência;
  7. Se o bebê desmaiar, inicie a RCP pediátrica imediatamente e acione o SAMU.

Como aplicar a Manobra de Heimlich em si mesmo (autoaplicação)

Se você estiver sozinho e engasgar, ainda assim é possível executar a manobra em si mesmo. Há duas formas reconhecidas:

  • Autoaplicação com as próprias mãos: feche uma das mãos em punho, posicione-a entre o umbigo e o apêndice xifoide, cubra com a outra mão e realize compressões vigorosas para dentro e para cima;
  • Apoio em superfície firme: incline-se sobre o encosto de uma cadeira, mesa ou bancada, posicionando a “boca do estômago” sobre a borda e empurrando o corpo para baixo com força, repetidamente, até expelir o objeto.

Em qualquer dessas situações, tente acionar o 192 antes ou peça socorro gritando, se ainda for capaz de emitir algum som.

Como realizar a manobra em gestantes e pessoas obesas

Em gestantes no terceiro trimestre e em pessoas obesas, a compressão abdominal tradicional torna-se inviável ou arriscada — na gestante, por causa do útero gravídico; na pessoa obesa, porque os braços do socorrista podem não envolver adequadamente a região abdominal.

Nesses casos, aplica-se a compressão torácica: posicione-se atrás da vítima, passe os braços sob as axilas e coloque o punho fechado no centro do esterno (a mesma região usada na RCP, na metade inferior desse osso). Apoie a outra mão sobre o punho e realize compressões firmes, para dentro, até a desobstrução. A técnica é igualmente eficaz e segura para a mãe e o bebê em gestantes.

O que mudou nas diretrizes recentes sobre manobras de desengasgo

As Diretrizes AHA 2025, em consonância com ASHI, ERC e protocolos do PHTLS, trouxeram atualizações importantes:

  • Maior ênfase na combinação de golpes interescapulares + compressões abdominais em adultos, em vez do uso isolado da Heimlich clássica;
  • Reforço da compressão torácica como técnica de escolha em gestantes, obesos e bebês;
  • Recomendação explícita de iniciar RCP imediatamente caso a vítima perca a consciência, sem desperdiçar tempo procurando o objeto cegamente na boca;
  • Incentivo à capacitação prática de leigos, especialmente professores e cuidadores, em sintonia com a Lei Lucas no Brasil.

Esses protocolos são abordados em profundidade — com simulações realísticas em manequins — nos cursos da 22Brasil.

O que fazer após a manobra: cuidados e quando chamar o SAMU (192)

Mesmo quando o procedimento é bem-sucedido e a vítima volta a respirar normalmente, é obrigatório encaminhá-la para avaliação médica. As compressões abdominais ou torácicas podem provocar lesões internas, como fraturas de costelas, hematomas hepáticos, contusões pulmonares e até pneumotórax — complicações que podem se manifestar horas depois.

O SAMU (192) deve ser acionado em todos os casos de engasgo grave, ainda que a obstrução já tenha sido resolvida. Mantenha a vítima sentada, calma, observe a respiração e a coloração da pele e não ofereça água ou alimento até que um profissional a avalie. Caso haja perda de consciência em qualquer momento, inicie a RCP imediatamente.

Erros mais comuns ao realizar a Manobra de Heimlich

  • Aplicar compressões abdominais em bebês menores de 1 ano — pode causar lesões graves;
  • Posicionar as mãos sobre as costelas ou sobre o apêndice xifoide, em vez da região correta no abdome;
  • Executar a manobra em vítimas que ainda conseguem tossir com força — isso atrapalha o mecanismo natural de expulsão;
  • Introduzir os dedos na boca da vítima (“varredura digital cega”) sem visualizar o objeto, o que pode empurrá-lo mais para o fundo;
  • Demorar a chamar o SAMU ou deixar de chamá-lo depois da desobstrução;
  • Aplicar a manobra em alguém que está apenas tossindo ou se recuperando sozinho;
  • Não iniciar RCP quando a vítima perde a consciência.

A melhor forma de evitar esses deslizes é o treinamento prático supervisionado em manequins, com correção em tempo real por instrutores qualificados — algo que cursos exclusivamente online não conseguem entregar.

Histórico: quem criou a Manobra de Heimlich e por quê

A técnica foi desenvolvida em 1974 pelo cirurgião torácico americano Dr. Henry Judah Heimlich (1920–2016). Até então, o protocolo padrão para engasgos consistia em aplicar tapas nas costas, conduta que muitas vezes empurrava o objeto ainda mais para o fundo da via aérea. Heimlich percebeu que uma pressão brusca sobre o diafragma poderia gerar uma “tosse artificial” capaz de expelir corpos estranhos com muito mais eficácia.

O procedimento foi publicado no periódico Emergency Medicine e rapidamente adotado por organizações como a Cruz Vermelha Americana e a AHA. Estima-se que, desde sua criação, a técnica tenha salvado mais de 100 mil vidas só nos Estados Unidos — incluindo a do próprio Dr. Heimlich, que, aos 96 anos, em 2016, aplicou a manobra com sucesso em uma moradora idosa do asilo onde vivia. Hoje, integra todos os protocolos mundiais de BLS e primeiros socorros.

Perguntas Frequentes

A Manobra de Heimlich pode machucar a pessoa engasgada?

Sim, pode provocar lesões como fraturas de costelas, contusões abdominais, ruptura de órgãos internos (especialmente fígado e baço) e hematomas. Esse risco, porém, é amplamente justificado diante da alternativa: a morte por asfixia em poucos minutos. Justamente por isso, mesmo após um desfecho bem-sucedido, a vítima deve ser avaliada por um médico.

Qualquer pessoa pode aplicar a Manobra de Heimlich ou precisa de treinamento?

Qualquer pessoa pode (e deve) aplicar em uma emergência, mas o treinamento prático faz enorme diferença na execução correta, na escolha entre compressão abdominal e torácica e na confiança para agir sob pressão. Para professores, cuidadores e funcionários de escolas, a capacitação é, inclusive, obrigatória por lei — confira quais cursos atendem à Lei Lucas. No ambiente empresarial, recomenda-se o curso corporativo.

Qual a diferença entre engasgo leve e engasgo grave?

No engasgo leve, a vítima consegue tossir com força, falar e respirar — a via aérea está parcialmente obstruída e a tosse é o mecanismo mais eficaz. Nesse cenário, basta estimular a tosse e observar. Já no engasgo grave, a pessoa não consegue mais tossir, falar nem respirar; faz o sinal universal (mãos no pescoço) e pode apresentar cianose. É nessa situação que a Manobra de Heimlich deve ser aplicada imediatamente.

A Manobra de Heimlich funciona em animais de estimação?

Existem adaptações da técnica para cães e gatos, com compressões abdominais ajustadas ao porte do animal. Contudo, a 22Brasil é especializada em atendimento pré-hospitalar humano; para emergências veterinárias, procure um médico-veterinário ou cursos específicos de primeiros socorros pet.

O que fazer se a Manobra de Heimlich não resolver o engasgo?

Continue alternando golpes nas costas e compressões (abdominais ou torácicas, conforme o caso) sem interrupção. Se a vítima perder a consciência, deite-a no chão, acione o SAMU (192) imediatamente e inicie a RCP de alta performance: 30 compressões torácicas seguidas de 2 ventilações, verificando a boca antes de cada ventilação para identificar se o objeto se deslocou. Não interrompa até a chegada do socorro especializado ou até a vítima voltar a respirar.

Posso usar a Manobra de Heimlich em uma pessoa inconsciente?

Não. Em vítimas inconscientes, o protocolo muda imediatamente para RCP. Deite a pessoa em superfície rígida, inicie compressões torácicas e ventilações. Antes de cada ventilação, abra a boca e verifique se o objeto está visível — se estiver, retire-o com os dedos. Nunca faça varredura digital cega, pois ela pode empurrar o corpo estranho mais para o fundo. Essa sequência integrada — desengasgo + RCP + uso de DEA — é o coração do treinamento de BLS e APH que forma socorristas preparados para o SAMU, o resgate e a atuação profissional em emergências.

Carlos Rodrigues é enfermeiro emergencista, pós-graduado pelo Centro Universitário São Camilo, especialista em APH Traumático e instrutor credenciado pela Health & Safety Institute (HSI) nos Estados Unidos — certificado para ministrar os cursos de BLS (Basic Life Support), Primeiros Socorros e EMR (Emergency Medical Responder), qualificações reconhecidas internacionalmente como padrão de excelência no cuidado pré-hospitalar. Com 9 anos de experiência e mais de 2.500 alunos formados, atuou em ocorrências de grande impacto como os alagamentos no Rio Grande do Sul, o acidente da Voepass em Vinhedo e o acidente da TAM em 2007 — o maior da história da aviação brasileira. Treina instituições como Instituto Cacau Show, Academia IronBerg e Exército Brasileiro, e é presença recorrente na mídia nacional, com participações na TV Gazeta, RedeVida, Rit TV e Rede Brasil.

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