
Tratamento queimadura de segundo grau
O tratamento de queimadura de segundo grau exige ação rápida, técnica correta e, acima de tudo, conhecimento para não agravar a lesão. Esse tipo de queimadura atinge não apenas a camada superficial da pele, mas também a derme, causando bolhas, dor intensa, vermelhidão e risco real de infecção — o que torna o atendimento pré-hospitalar nos primeiros minutos absolutamente decisivo para o prognóstico da vítima.
Muitos erros acontecem justamente nessa janela inicial: aplicar pasta de dente, manteiga ou gelo sobre a área queimada são condutas que parecem intuitivas, mas que a medicina de emergência descarta há décadas. Socorristas, técnicos de enfermagem, bombeiros e qualquer profissional que atue na linha de frente precisam dominar os protocolos corretos — desde o resfriamento adequado com água corrente até a avaliação da extensão da queimadura pela Regra dos Nove e os critérios para encaminhamento hospitalar.
Neste artigo, você vai entender o que fazer (e o que jamais fazer) diante de uma queimadura de segundo grau, com base nas diretrizes mais atuais de atendimento pré-hospitalar. Se você é profissional ou estudante da área da saúde e quer aprofundar essa e outras habilidades de emergência com alta carga prática, este conteúdo também é um ponto de partida importante para sua formação.
O Que É Queimadura de Segundo Grau e Como Identificá-la
A queimadura de segundo grau é uma lesão térmica, química ou por radiação que ultrapassa a camada mais superficial da pele (epiderme) e atinge parte da derme. Diferente da queimadura de primeiro grau — que causa apenas vermelhidão e ardência —, a de segundo grau se caracteriza pela formação de bolhas (flictenas) contendo líquido claro, resultado do extravasamento de plasma pelos vasos danificados. Reconhecer corretamente esse tipo de lesão é o primeiro passo para um tratamento eficaz, pois a conduta imediata influencia diretamente na cicatrização, no risco de infecção e na formação de sequelas estéticas e funcionais.
Do ponto de vista clínico, a queimadura de segundo grau é classificada como uma queimadura de espessura parcial. Isso significa que folículos pilosos, glândulas sudoríparas e sebáceas — estruturas responsáveis pela regeneração da pele — geralmente permanecem preservadas, o que permite reepitelização espontânea na maioria dos casos, desde que a ferida seja bem cuidada. Nos treinamentos de APH e primeiros socorros da 22Brasil, essa classificação é ensinada com base em protocolos internacionais (PHTLS, ITLS) e na Portaria 2048 do Ministério da Saúde.
Diferença Entre Queimadura de Segundo Grau Superficial e Profunda
A queimadura de segundo grau superficial atinge apenas a derme papilar. Apresenta bolhas volumosas, úmidas, coloração rósea-avermelhada intensa, enchimento capilar preservado e dor forte — sinal de que as terminações nervosas ainda estão íntegras. Cicatriza normalmente entre 10 e 21 dias, sem necessidade de enxerto, e costuma deixar pouca ou nenhuma sequela.
Já a queimadura de segundo grau profunda compromete a derme reticular. As bolhas podem ser menores ou já estar rompidas, o leito da ferida fica esbranquiçado ou avermelhado com áreas pálidas, o enchimento capilar é lento e a sensibilidade dolorosa está reduzida (as terminações nervosas foram parcialmente destruídas). A cicatrização se estende por mais de 21 dias, muitas vezes exige enxertia de pele e deixa cicatrizes hipertróficas ou retrações importantes.
Principais Sintomas: Bolhas, Dor, Vermelhidão e Edema
- Bolhas (flictenas): sinal patognomônico — surgem em minutos ou horas após a exposição térmica.
- Dor intensa: especialmente nas superficiais, devido à exposição de terminações nervosas.
- Vermelhidão (eritema): pele ao redor da lesão hiperemiada.
- Edema local: inchaço decorrente da resposta inflamatória e do extravasamento de líquidos.
- Umidade e brilho: a área queimada tem aspecto úmido quando a bolha se rompe.
- Sensibilidade ao toque e à temperatura: qualquer estímulo, inclusive o vento, gera desconforto.
Causas Mais Comuns: Líquidos Quentes, Chamas, Sol e Produtos Químicos
As escaldaduras por líquidos quentes (água fervente, óleo, café, sopa) são a principal causa de queimaduras de segundo grau no ambiente doméstico, especialmente em crianças. Em adultos, chamas diretas — fogão, churrasqueira, incêndios — dominam as estatísticas. A radiação solar prolongada pode gerar queimaduras de segundo grau superficiais, com bolhas típicas do tratamento de queimadura solar. Produtos químicos (ácidos, bases fortes, alvenaria, cimento úmido) e queimaduras elétricas também podem causar lesões desse tipo, exigindo abordagem específica pela persistência do agente agressor sobre a pele.
Primeiros Socorros Imediatos para Queimadura de Segundo Grau
A qualidade do atendimento nos primeiros minutos define grande parte do prognóstico. Um socorrista treinado sabe que a prioridade é interromper o processo de agressão térmica, resfriar corretamente e proteger a lesão até a chegada ao serviço médico. Reforçar essa base prática é uma das razões pelas quais entender o objetivo dos primeiros socorros vai muito além da teoria — exige treinamento com simulações realísticas.
O Que Fazer nos Primeiros Minutos: Resfriamento Correto com Água
- Afaste a vítima da fonte de calor com segurança (sem se colocar em risco).
- Retire roupas e adornos (anéis, pulseiras, relógios) da região queimada, desde que não estejam grudados na pele.
- Resfrie a área com água corrente em temperatura ambiente (cerca de 15–25 °C) por 10 a 20 minutos. Esse tempo é fundamental para dissipar o calor residual e reduzir a progressão da lesão.
- Cubra a região com gaze estéril ou pano limpo e úmido, sem apertar.
- Não rompa as bolhas — elas funcionam como um curativo biológico natural.
- Ofereça líquidos se a vítima estiver consciente e a queimadura for extensa (o risco de desidratação é real).
- Encaminhe ao serviço de saúde ou acione o SAMU (192).
O Que Nunca Fazer: Gelo, Pasta de Dente, Manteiga e Outros Mitos
A cultura popular acumulou receitas caseiras que, na prática, agravam a lesão:
- Gelo direto: causa vasoconstrição intensa e pode aprofundar a queimadura, gerando lesão por frio sobre lesão térmica.
- Pasta de dente: contém mentol e substâncias irritantes; retém calor e favorece infecção.
- Manteiga, óleo, margarina: formam película que aprisiona o calor e servem de meio de cultura para bactérias.
- Pó de café, borra, clara de ovo, urina: contaminam a ferida e dificultam a avaliação médica posterior.
- Estourar bolhas: abre porta de entrada para infecção.
- Algodão diretamente na ferida: as fibras aderem ao leito e complicam a limpeza.
Quando Ir ao Pronto-Socorro ou Chamar Emergência
Nem toda queimadura de segundo grau exige internação, mas alguns critérios tornam o atendimento hospitalar obrigatório: extensão superior a 10% da superfície corporal em adultos (ou 5% em crianças e idosos); acometimento de face, pescoço, mãos, pés, genitália ou grandes articulações; queimaduras circunferenciais (que envolvem todo o perímetro de um membro); queimaduras químicas ou elétricas; sinais de inalação de fumaça (rouquidão, tosse, escarro carbonáceo); e vítimas com comorbidades como diabetes ou imunossupressão. Nesses casos, acione o SAMU imediatamente.
Tratamento Médico da Queimadura de Segundo Grau
Ao chegar ao serviço de saúde, a vítima passa por avaliação sistemática — em unidades especializadas segue-se o protocolo XABCDE, com atenção especial à via aérea, à hidratação venosa (fórmula de Parkland para grandes queimados) e ao controle da dor. Só então inicia-se o cuidado local da ferida.
Limpeza e Desbridamento da Ferida: Como é Feito pelo Profissional
A limpeza é feita com soro fisiológico 0,9% morno e clorexidina degermante diluída, removendo suavemente resíduos, sujidade e tecido necrótico. O desbridamento pode ser mecânico (com gaze e pinça), enzimático (com colagenase) ou cirúrgico, dependendo da profundidade. Bolhas íntegras e pequenas geralmente são preservadas; bolhas grandes, rotas ou em áreas de articulação costumam ser debridadas para permitir avaliação do leito e aplicação adequada da cobertura.
Curativos e Coberturas: Tipos Utilizados no Tratamento Local
A escolha da cobertura depende da profundidade, exsudato e localização:
- Gaze com sulfadiazina de prata: padrão clássico, antimicrobiano.
- Hidrocoloides: para lesões pouco exsudativas e superficiais.
- Hidrogéis: mantêm ambiente úmido e auxiliam no desbridamento autolítico.
- Espumas de poliuretano: ideais para lesões exsudativas.
- Curativos com prata nanocristalina: alta ação antibacteriana, trocas mais espaçadas.
- Filmes transparentes: proteção em lesões em cicatrização final.
Medicamentos Tópicos: Sulfadiazina de Prata, Mel Medicinal e Outros Agentes
A sulfadiazina de prata a 1% continua sendo o agente tópico mais utilizado no Brasil por seu amplo espectro contra bactérias gram-positivas e gram-negativas, incluindo Pseudomonas aeruginosa. O mel medicinal (grau hospitalar, esterilizado) vem ganhando espaço por sua ação osmótica, antibacteriana e cicatrizante. Outras opções incluem colagenase (desbridamento enzimático), ácidos graxos essenciais (AGE) em lesões superficiais e nitrato de cerário associado à sulfadiazina em queimaduras profundas.
Controle da Dor e Uso de Analgésicos e Anti-inflamatórios
A dor é intensa e deve ser tratada com escala progressiva: dipirona e paracetamol nos casos leves; associação com anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, cetoprofeno) nos moderados; e opioides (tramadol, morfina) nos casos graves e durante trocas de curativo. Ansiolíticos podem ser prescritos para reduzir o desconforto emocional, especialmente em crianças.
Profilaxia Antitetânica e Uso de Antibióticos
Toda queimadura de segundo grau representa solução de continuidade da pele e exige avaliação do status vacinal contra tétano. Se o esquema estiver incompleto ou a última dose tiver mais de 5 anos, indica-se reforço com dT (dupla adulta) ou aplicação de imunoglobulina antitetânica. Antibióticos sistêmicos não são usados profilaticamente — apenas quando há sinais claros de infecção (celulite, secreção purulenta, febre), com escolha guiada por cultura.
Tratamentos Avançados e Tecnologias Modernas
Membracel e Coberturas Biossintéticas no Tratamento de Queimaduras
A Membracel é uma película de celulose bacteriana biossintética que age como pele artificial temporária. Aplicada sobre o leito da queimadura, adere firmemente, reduz a dor, diminui a perda de líquidos e cria ambiente ideal para reepitelização, com o benefício de dispensar trocas frequentes — permanece até que a pele nova cresça por baixo e a película descole naturalmente. É especialmente útil em queimaduras de segundo grau superficiais em face, tronco e membros.
Pele de Tilápia como Xenoenxerto: Evidências e Aplicações Clínicas
Pesquisa brasileira desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará consolidou o uso da pele de tilápia esterilizada como xenoenxerto em queimaduras. Rica em colágeno tipo I e III, ela adere à ferida, reduz drasticamente a dor, diminui o número de trocas de curativo e acelera a cicatrização. Já é utilizada em serviços do SUS e representa uma alternativa acessível e sustentável, com resultados clínicos comparáveis a coberturas importadas.
Enxertia de Pele: Quando É Indicada em Queimaduras de Segundo Grau Profundo
Quando a queimadura de segundo grau profunda não reepiteliza em 21 dias ou apresenta risco elevado de cicatriz hipertrófica e retração, indica-se enxerto autólogo de pele parcial, retirado geralmente da coxa ou glúteo com dermátomo. Em grandes queimados, técnicas como cultura de queratinócitos (pele cultivada em laboratório) e matrizes dérmicas (Integra, Matriderm) complementam a estratégia cirúrgica.
Tratamento por Região do Corpo
Queimadura de Segundo Grau no Rosto: Cuidados Específicos
A face é uma das regiões mais delicadas por questões estéticas e funcionais (olhos, boca, nariz, orelhas). O tratamento costuma ser aberto ou semi-aberto, com aplicação de pomadas específicas (AGE, colagenase, sulfadiazina em áreas pontuais) várias vezes ao dia. Evita-se curativos oclusivos por dificultarem a alimentação, a higiene e a expressão facial. É obrigatório o acompanhamento oftalmológico se houver acometimento periocular e proteção solar rigorosa (FPS 50+) por, no mínimo, 12 meses após a cicatrização.
Queimadura de Segundo Grau nas Mãos, Pés e Articulações
Nessas regiões o risco de retração cicatricial é alto e compromete a função. O tratamento inclui posicionamento em posição funcional (dedos levemente flexionados, tornozelo a 90°), enfaixamento digitado (cada dedo separado por gaze), fisioterapia motora precoce e, muitas vezes, órteses. Anéis e alianças devem ser retirados imediatamente pelo risco de garroteamento com o edema.
Queimadura de Segundo Grau em Crianças: Atenção Redobrada
A pele infantil é mais fina, então a mesma exposição gera lesão mais profunda. Além disso, a superfície corporal proporcionalmente maior em relação ao peso favorece desidratação e hipotermia. Toda queimadura de segundo grau em criança com mais de 5% de superfície corporal ou em áreas nobres deve ser avaliada em pronto-socorro. Vale reforçar que pais e cuidadores treinados em primeiros socorros — como preconiza a Lei Lucas — reduzem drasticamente as complicações. Conhecer o objetivo dos primeiros socorros é essencial para agir com precisão nesses momentos.
Cuidados em Casa Durante a Recuperação
Como Fazer o Curativo em Casa: Passo a Passo
- Lave bem as mãos com água e sabão e, se possível, use luvas descartáveis.
- Remova o curativo anterior com cuidado; se estiver aderido, umedeça com soro fisiológico.
- Lave a lesão com soro fisiológico 0,9% em jato suave (frasco furado com agulha).
- Seque a pele ao redor com gaze estéril, sem esfregar sobre a ferida.
- Aplique o medicamento tópico prescrito em camada fina e uniforme.
- Cubra com gaze estéril, envolvendo com atadura de crepe sem apertar.
- Registre a evolução (fotos ajudam) e mantenha as trocas na frequência orientada — em geral, a cada 24 horas.
Hidratação, Alimentação e Suporte Nutricional para Cicatrização
A cicatrização é um processo metabolicamente exigente. A dieta deve ser hiperproteica (1,5 a 2 g de proteína por kg/dia), rica em vitaminas A, C e E, zinco e selênio. Hidratação abundante (água, sopas, sucos naturais) compensa a perda hídrica pela ferida. Evite tabagismo e álcool — ambos reduzem a perfusão tecidual e retardam a cicatrização em até 40%.
Sinais de Infecção: Como Identificar e o Que Fazer
- Aumento súbito da dor após dias de melhora.
- Vermelhidão que se espalha além das bordas da ferida.
- Secreção purulenta (amarelada, esverdeada ou com odor fétido).
- Febre acima de 38 °C, calafrios ou mal-estar.
- Cicatrização estagnada ou retrocedendo.
Diante de qualquer um desses sinais, procure atendimento imediatamente. A infecção pode aprofundar a queimadura e evoluir para sepse. Ter um kit de primeiros socorros bem montado em casa facilita as trocas de curativo e a resposta rápida a intercorrências.
Cicatrização e Sequelas da Queimadura de Segundo Grau
Tempo de Cicatrização: O Que Esperar em Cada Tipo
A queimadura de segundo grau superficial cicatriza entre 10 e 21 dias, geralmente sem cicatriz permanente — pode restar hiperpigmentação temporária, que clareia em 6 a 12 meses com proteção solar rigorosa. A queimadura de segundo grau profunda exige mais de 21 dias, com risco elevado de cicatriz hipertrófica (elevada, avermelhada, pruriginosa), queloides em pessoas predispostas e retrações que limitam a mobilidade. O acompanhamento por até 18 meses inclui uso de placas de silicone, malhas compressivas, hidratação intensiva, protetor solar e, quando necessário, sessões de laser ou cirurgia de revisão de cicatriz.
Dominar toda essa cadeia de cuidados — do primeiro atendimento até o acompanhamento tardio — é o que separa um socorrista bem treinado de alguém que apenas “tentou ajudar”. Nos cursos da 22Brasil, o módulo de queimados é trabalhado com simulações realísticas, coberturas modernas e protocolos AHA, PHTLS e ITLS, seguindo a Portaria 2048 do Ministério da Saúde. Se você é profissional ou estudante da saúde, bombeiro, condutor de emergência ou deseja ingressar no SAMU, aprofundar-se em tratamento de queimaduras de pele e demais protocolos de trauma faz parte do dia a dia real do socorrista — e é isso que preparamos você para enfrentar.

