Como a manobra de heimlich deve ser realizada?
A manobra de Heimlich é uma técnica de emergência utilizada para desobstruir as vias aéreas em casos de engasgo, e saber como a manobra de Heimlich deve ser realizada pode ser a diferença entre a vida e a morte enquanto o socorro especializado não chega. Embora seja amplamente divulgada, a execução correta exige técnica precisa, conhecimento da anatomia e atenção a situações específicas, como engasgo em bebês, gestantes e pessoas obesas. Erros comuns, como aplicar compressões na região errada ou com força inadequada, podem causar lesões graves ou tornar o procedimento ineficaz.
Dominar essa manobra vai além do conhecimento teórico: é uma habilidade prática que qualquer profissional de saúde, educador ou socorrista precisa treinar repetidamente para agir com segurança sob pressão. Neste artigo, você vai entender o passo a passo técnico da manobra, as adaptações necessárias para cada público e os erros que devem ser evitados. Se você busca uma formação sólida em emergências, lembre-se de que a prática supervisionada é indispensável — e é exatamente isso que um bom curso de primeiros socorros deve oferecer.
O Que É a Manobra de Heimlich e Por Que Ela Salva Vidas
A manobra de Heimlich é uma técnica de desobstrução de vias aéreas por compressão abdominal que gera um aumento súbito da pressão intratorácica. Esse mecanismo expulsa o ar residual dos pulmões com força suficiente para ejetar um corpo estranho alojado na traqueia ou laringe. O nome vem do médico norte-americano Henry Heimlich, que publicou a técnica em 1974 na revista Emergency Medicine, após observar que compressões no andar superior do abdômen elevavam o diafragma e criavam um fluxo expiratório artificial potente. Para entender a origem do nome e a história da técnica, você pode consultar por que o nome é manobra de Heimlich.
O engasgo grave é uma emergência tempo-dependente: a obstrução total impede a passagem de oxigênio e leva à hipóxia cerebral em poucos minutos. Dados da Associação Americana do Coração (AHA) indicam que a perda de consciência ocorre entre 3 e 4 minutos após a parada respiratória por corpo estranho, e a lesão neurológica irreversível pode começar em 4 a 6 minutos. Por isso, a manobra é considerada intervenção de primeira linha em protocolos internacionais de suporte básico de vida, aparecendo nas diretrizes da AHA, da ASHI e do PHTLS como resposta imediata à obstrução grave em vítimas conscientes.
No contexto brasileiro, a Portaria 2048 do Ministério da Saúde estabelece que o atendimento pré-hospitalar deve seguir protocolos padronizados de desobstrução, incluindo a manobra de Heimlich e suas adaptações. Um socorrista treinado em APH aprende a executar a técnica com precisão anatômica e a decidir rapidamente entre compressões abdominais, torácicas ou golpes nas costas conforme o perfil da vítima — decisão que não é intuitiva para leigos e exige prática supervisionada.
Como Reconhecer um Engasgo Grave Antes de Agir
O reconhecimento correto do tipo de obstrução define a conduta. A classificação clássica divide o engasgo em parcial (vias aéreas ainda permitem alguma troca de ar) e total (bloqueio completo). Aplicar compressões abdominais em uma obstrução parcial com tosse eficaz pode transformar uma situação controlada em obstrução total, porque a força da manobra pode deslocar o objeto para uma posição mais crítica.
O sinal universal de engasgo — as mãos levadas ao pescoço — está presente em grande parte dos casos de obstrução total e é um dos marcadores visuais mais confiáveis para o socorrista. No entanto, nem toda vítima consegue realizar esse gesto, especialmente crianças pequenas, idosos com limitação motora ou pessoas em pânico extremo. Por isso, o treinamento prático em primeiros socorros enfatiza a avaliação combinada de sinais clínicos, sons respiratórios e nível de consciência antes de qualquer intervenção.
Sinais de Obstrução Parcial das Vias Aéreas
Na obstrução parcial, a vítima mantém alguma ventilação e geralmente responde a estímulos. A tosse é o principal mecanismo de defesa e deve ser estimulada — nunca suprimida. Uma tosse forte e sonora indica que o fluxo de ar ainda é suficiente para tentar expelir o objeto naturalmente.
- Tosse vigorosa e audível
- Capacidade de falar algumas palavras com esforço
- Respiração ruidosa, com estridor ou sibilos
- Agitação e ansiedade crescentes
- Cianose discreta ou ausente nos lábios
A conduta nesse cenário é observação ativa e incentivo à tosse. Não se aplica a manobra de Heimlich enquanto a troca de ar for eficaz. Se a tosse enfraquecer, a voz desaparecer ou a cianose progredir, a obstrução evoluiu para total e a intervenção deve começar imediatamente.
Sinais de Obstrução Total: Quando Agir Imediatamente
Na obstrução total, não há passagem de ar. A vítima fica silenciosa — um dado clínico crítico, pois o silêncio súbito após um episódio de tosse ou alimentação indica bloqueio completo. A ausência de som respiratório diferencia claramente esse quadro da crise asmática ou de outras causas de desconforto respiratório.
- Incapacidade de falar, tossir ou chorar (em bebês)
- Ausência de sons respiratórios
- Sinal universal de engasgo (mãos no pescoço)
- Cianose rápida de lábios, leito ungueal e face
- Expressão de pânico e olhos arregalados
- Perda progressiva de consciência se não houver intervenção
A partir do reconhecimento da obstrução total em vítima consciente, o protocolo é iniciar a manobra de Heimlich imediatamente e acionar o serviço de emergência (192 no SAMU) de forma paralela, se houver outro socorrista disponível. A cada segundo de hipóxia, a chance de desfecho neurológico favorável diminui — por isso a técnica precisa ser automatizada por treinamento repetitivo.
Como Realizar a Manobra de Heimlich em Adultos e Crianças Acima de 1 Ano
A técnica clássica de compressão abdominal segue uma sequência padronizada que deve ser executada com decisão. As diretrizes AHA 2025 mantêm a manobra de Heimlich como padrão para vítimas conscientes acima de 1 ano com obstrução total, reservando os golpes nas costas para situações específicas e para a transição em vítimas que perdem a consciência. A força aplicada precisa ser proporcional ao biotipo da vítima — um adulto robusto exige compressões vigorosas, enquanto uma criança exige modulação para evitar trauma interno.
Em um curso de APH presencial, o aluno pratica a manobra em manequins de treinamento com sensor de profundidade e em simulações realísticas com colegas, sob supervisão de instrutores. Essa repetição prática é o que transforma o conhecimento teórico em resposta automática — essencial em uma situação onde o socorrista tem menos de 5 minutos para agir antes da inconsciência.
Passo 1 — Posicione-se Corretamente Atrás da Vítima
Fique em pé atrás da vítima, que deve estar de pé ou sentada. Envolva a cintura dela com os dois braços, mantendo seu corpo levemente deslocado para o lado para que a vítima não caia sobre você se perder a consciência. Essa posição lateralizada é um detalhe técnico importante que muitos leigos desconhecem: se a vítima desmaiar durante a manobra, o socorrista precisa conseguir acompanhá-la ao chão sem ficar preso embaixo do corpo.
Incline o tronco da vítima ligeiramente para frente. Essa inclinação usa a gravidade a favor do socorrista: quando o objeto for expelido, ele tende a sair pela boca em vez de se realojar na via aérea. Em vítimas conscientes, explique rapidamente o que vai fazer — frases curtas como “vou te ajudar, incline para frente” reduzem o pânico e facilitam a colaboração.
Passo 2 — Localize o Ponto Exato para as Compressões Abdominais
Feche uma das mãos em punho e posicione o lado do polegar contra o abdômen da vítima, na linha média, entre o umbigo e o apêndice xifoide (a ponta inferior do osso esterno). Esse ponto corresponde ao epigástrio, onde a compressão eleva o diafragma sem risco imediato de fratura de costelas ou lesão hepática. Um erro comum é posicionar o punho alto demais, sobre o esterno, o que pode fraturar o osso e não gera a pressão abdominal necessária.
Cubra o punho com a outra mão, mantendo os cotovelos abertos para fora. A pegada precisa ser firme, mas sem travar os braços — a força deve vir de um movimento coordenado de tronco e braços, não apenas de força de bíceps. Em vítimas de baixa estatura, o socorrista pode ajoelhar-se atrás para alinhar o punho corretamente.
Passo 3 — Execute as Compressões com Força e Ritmo Adequados
Aplique compressões rápidas, direcionadas para dentro e para cima, como se formasse um “J” com o movimento. Cada compressão deve ser distinta e vigorosa, com intervalo suficiente entre elas para permitir a reexpansão torácica. O ritmo recomendado é de aproximadamente uma compressão por segundo, com intensidade crescente se as primeiras tentativas não deslocarem o objeto.
A profundidade efetiva em adultos exige força considerável — em treinamento com manequins instrumentados, os instrutores da 22Brasil corrigem a profundidade e o vetor da compressão em tempo real. Esse feedback prático é impossível de obter em vídeos ou cursos online, que mostram a técnica sem corrigir a biomecânica individual de cada aluno. A força inadequada é uma das principais causas de falha da manobra em situações reais.
Passo 4 — Repita Até o Objeto Ser Expelido ou o Socorro Chegar
Continue as compressões até que o objeto seja expelido, a vítima volte a respirar, tossir ou falar, ou até que ela perca a consciência. Não interrompa a manobra após uma ou duas tentativas sem resultado — em alguns casos, são necessárias 5 a 10 compressões bem aplicadas para deslocar um objeto firmemente impactado. Se a vítima ficar inconsciente, a conduta muda radicalmente: inicie RCP imediatamente, começando pelas compressões torácicas.
Após a desobstrução, mantenha a vítima em posição confortável e monitore a respiração. O objeto expelido pode ter causado lesão na mucosa da via aérea, e o edema resultante pode causar nova obstrução minutos depois. Por isso, toda vítima de engasgo grave deve ser avaliada por equipe médica mesmo que a manobra tenha sido bem-sucedida — um princípio que o curso de primeiros socorros reforça em todas as turmas.
Como Realizar a Manobra de Heimlich em Bebês Menores de 1 Ano
A técnica para bebês é completamente diferente da aplicada em adultos, e aplicar compressões abdominais em uma criança menor de 1 ano é contraindicado. As estruturas abdominais do bebê — especialmente o fígado, que é proporcionalmente maior e menos protegido pela caixa torácica — são vulneráveis a lesões graves por compressão. As diretrizes AHA e ASHI determinam a combinação de golpes nas costas e compressões torácicas como padrão para essa faixa etária.
Essa distinção por idade é um dos pontos mais cobrados em avaliações de suporte básico de vida. Em um curso de BLS com certificação internacional HSI, o aluno pratica a sequência específica para bebês em manequins neonatais, desenvolvendo a sensibilidade de força que não pode ser transmitida por texto ou vídeo. A pressão excessiva em um bebê real pode causar fratura de costelas e lesão hepática — o treinamento prático existe justamente para calibrar essa intensidade.
Por Que a Técnica É Diferente para Bebês
A anatomia do bebê impõe adaptações: a cabeça é proporcionalmente maior, o pescoço é curto e a via aérea tem diâmetro reduzido. O fígado e o baço estão menos protegidos, e as costelas são mais flexíveis e cartilaginosas, transmitindo menos proteção aos órgãos internos. Além disso, a causa mais comum de engasgo em bebês são alimentos inadequados para a idade (como uvas inteiras, castanhas, pedaços de salsicha) e objetos pequenos levados à boca.
A posição de segurança para a manobra em bebês é sentada ou ajoelhada, com o bebê apoiado no antebraço do socorrista, de bruços, com a cabeça mais baixa que o tronco. Essa posição em declive usa a gravidade para auxiliar a saída do objeto. A cabeça do bebê deve ser firmemente apoiada pela mandíbula, nunca pelo pescoço, para manter a via aérea alinhada sem comprimir estruturas moles.
Golpes nas Costas e Compressões no Tórax: Passo a Passo
- Posicione o bebê de bruços sobre seu antebraço, com a cabeça mais baixa que o corpo
- Apoie a mandíbula do bebê com os dedos, sem pressionar a garganta
- Aplique até 5 golpes firmes com a base da mão entre as escápulas
- Vire o bebê de costas, mantendo a cabeça mais baixa que o tronco
- Localize o ponto de compressão: linha intermamilar, centro do esterno
- Aplique até 5 compressões torácicas com dois dedos, a um terço da profundidade do tórax
- Alterne 5 golpes nas costas e 5 compressões torácicas até a desobstrução ou inconsciência
Cada golpe nas costas deve ser forte o suficiente para gerar pressão intratorácica, mas controlado para não causar trauma. Após cada sequência, verifique rapidamente a boca do bebê — se o objeto estiver visível na cavidade oral, remova-o com o dedo mínimo em gancho. Nunca faça varredura às cegas, pois isso pode empurrar o objeto mais fundo na via aérea.
Manobra de Heimlich em Gestantes e Pessoas Obesas
Em gestantes — especialmente a partir do segundo trimestre — e em pessoas com obesidade severa, a compressão abdominal clássica é contraindicada ou ineficaz. No caso da gestante, o útero gravídico ocupa o abdômen superior e a compressão nessa região pode causar lesão placentária, descolamento de placenta ou trauma fetal. Em pessoas obesas, a camada de tecido adiposo impede que a força da compressão atinja o diafragma com eficácia, tornando a manobra inócua.
As diretrizes AHA 2025 e o protocolo PHTLS orientam a adaptação para compressões torácicas nesses dois perfis. O ponto de aplicação é o mesmo das compressões de RCP: centro do esterno, na linha intermamilar. A mecânica é semelhante à da manobra clássica, mas o vetor da força é aplicado diretamente sobre o osso esterno, gerando aumento da pressão intratorácica sem comprimir o abdômen.
Adaptação da Técnica: Compressões no Tórax em Vez do Abdômen
Posicione-se atrás da vítima, como na técnica clássica, mas envolva o tórax em vez da cintura. Coloque o punho fechado no centro do esterno, na linha intermamilar, com a outra mão cobrindo o punho. Aplique compressões firmes para dentro, no sentido anteroposterior, sem inclinar a vítima excessivamente para frente — em gestantes, uma inclinação moderada é suficiente e evita risco de queda por desequilíbrio.
Se a gestante estiver no terceiro trimestre e a compressão torácica em pé for difícil de executar pelo volume abdominal, o socorrista pode posicioná-la sentada em uma cadeira com encosto baixo, mantendo-se atrás. Em ambiente pré-hospitalar com equipe treinada, a gestante inconsciente recebe RCP com deslocamento manual do útero para a esquerda, conforme protocolo de APH — uma manobra avançada ensinada no curso de socorrista da 22Brasil.
Como Realizar a Manobra de Heimlich em Si Mesmo
A autoaplicação da manobra de Heimlich é possível e deve ser ensinada a qualquer pessoa que viva ou trabalhe sozinha. A vítima de engasgo total tem entre 2 e 4 minutos de consciência útil antes do desmaio — tempo suficiente para tentar a autoaplicação se a técnica estiver memorizada. As duas formas principais são a compressão com as próprias mãos e o uso de uma superfície firme como apoio.
Autoaplicação com as Próprias Mãos
Feche uma das mãos em punho e posicione o lado do polegar na mesma região da técnica clássica: entre o umbigo e o apêndice xifoide. Cubra o punho com a outra mão e aplique compressões rápidas para dentro e para cima, com a mesma intenção de movimento da manobra assistida. A limitação é biomecânica — a força que você consegue gerar contra o próprio abdômen é menor que a de um socorrista externo —, mas ainda pode ser suficiente para deslocar o objeto.
Incline-se para frente durante as compressões para usar a gravidade a seu favor. Se possível, posicione-se próximo a um telefone ou acione o viva-voz antes de iniciar as tentativas. Cada compressão deve ser executada com decisão, sem hesitar por medo de se machucar — a alternativa (hipóxia) é muito mais grave que um possível hematoma abdominal.
Usando uma Superfície Firme como Apoio
A segunda técnica aproveita o peso do próprio corpo contra uma borda firme: encosto de cadeira, canto de mesa, balcão ou grade. Posicione a região epigástrica (entre umbigo e esterno) contra a borda e deixe o corpo cair sobre ela, usando o peso do tronco para gerar a compressão. Repita o movimento com força controlada até que o objeto seja expelido.
Esse método é mais eficaz que a compressão manual porque utiliza a massa corporal em vez de força de braço. Em treinamentos de primeiros socorros para cuidadores e profissionais que trabalham sozinhos, a autoaplicação com superfície firme é demonstrada e praticada. A técnica também é recomendada para pessoas com mobilidade reduzida que não conseguem executar a compressão manual com força adequada.
O Que Fazer se a Vítima Perder a Consciência Durante o Engasgo
A perda de consciência durante o engasgo muda o protocolo: a manobra de Heimlich em pé deixa de ser aplicável e o socorrista transita para RCP. A vítima inconsciente perde o tônus muscular, e a via aérea pode se tornar ainda mais obstruída pela queda da língua. A conduta correta é deitar a vítima em superfície rígida, acionar o serviço de emergência imediatamente e iniciar compressões torácicas de alta qualidade.
As compressões torácicas da RCP geram aumento de pressão intratorácica que pode, por si só, expelir o corpo estranho. Por isso, em vítima inconsciente de engasgo, a RCP substitui a manobra de Heimlich — e não o contrário. Esse fluxo de decisão é treinado exaustivamente em cenários simulados no curso de APH, onde o aluno pratica a transição entre desobstrução, RCP e uso do DEA em sequência contínua.
Transição para RCP e Verificação da Boca Antes das Ventilações
Após deitar a vítima e iniciar as compressões torácicas (30 compressões no adulto), abra a via aérea com a manobra de inclinação da cabeça e elevação do queixo. Antes de realizar as ventilações de resgate, verifique visualmente a boca da vítima — se o objeto estiver visível e acessível, remova-o com os dedos em gancho. A varredura às cegas é proibida pelo risco de empurrar o objeto mais profundamente.
Se o objeto não estiver visível, realize as ventilações mesmo assim e continue o ciclo de RCP. A cada ciclo, reavalie a boca antes das ventilações. O uso do desfibrilador externo automático deve ser providenciado assim que disponível, pois a hipóxia prolongada pode evoluir para fibrilação ventricular. A integração entre desobstrução, RCP e uso do DEA é o núcleo do suporte básico de vida e deve ser treinada presencialmente para execução coordenada.
Erros Comuns ao Aplicar a Manobra de Heimlich e Como Evitá-los
Os erros mais frequentes na aplicação da manobra de Heimlich estão relacionados à localização incorreta do ponto de compressão, à intensidade inadequada da força e à demora em iniciar a intervenção. Um estudo de revisão sobre desobstrução de vias aéreas publicado no Resuscitation Journal aponta que a hesitação do socorrista — por medo de machucar a vítima — é um fator determinante de desfecho ruim, pois atrasa a única intervenção que pode reverter o quadro.
- Posicionar o punho sobre o esterno ou sobre as costelas, em vez do epigástrio
- Aplicar força insuficiente por medo de causar lesão
- Realizar varredura digital às cegas na boca da vítima
- Aplicar a manobra em obstrução parcial com tosse eficaz
- Interromper a manobra após uma ou duas tentativas sem sucesso
- Não acionar o SAMU em paralelo quando há outro socorrista disponível
- Usar compressões abdominais em gestantes ou bebês
- Demorar a transição para RCP quando a vítima perde a consciência
A correção desses erros exige prática supervisionada. Em um curso presencial de primeiros socorros ou APH, o instrutor observa a biomecânica de cada aluno, corrige a posição das mãos, a direção do vetor de força e a profundidade da compressão em manequins com feedback. Esse nível de correção individual é o que diferencia o treinamento real da simples visualização de conteúdo teórico.
Cuidados e Riscos Após a Realização da Manobra
A manobra de Heimlich é uma intervenção salvadora, mas não é isenta de complicações. A literatura médica registra casos de fratura de costelas, laceração hepática, ruptura esplênica, perfuração gástrica e até lesão de aorta abdominal após compressões abdominais vigorosas. A incidência é baixa — estimada em menos de 1% dos casos —, mas o socorrista precisa conhecer esses riscos para aplicá-los na decisão clínica: o benefício de salvar a vida supera amplamente o risco de lesão, e a manobra deve ser feita mesmo com essa possibilidade.
Em crianças e idosos, o risco de trauma é maior devido à menor massa muscular e à fragilidade óssea relativa. Por isso, a força aplicada deve ser modulada conforme o biotipo. O curso de BLS da 22Brasil dedica um módulo específico à biomecânica da desobstrução, com prática em manequins pediátricos e adultos, para que o aluno desenvolva a memória motora da força adequada para cada faixa etária.
Por Que a Vítima Deve Ser Avaliada por um Médico Mesmo Após a Desobstrução
Toda vítima de engasgo grave deve ser encaminhada para avaliação médica mesmo que a manobra tenha sido bem-sucedida e a respiração tenha normalizado. As razões incluem a possibilidade de lesão interna não aparente (hematoma hepático, fratura de costela sem desvio), o edema de via aérea causado pela passagem do objeto e o risco de aspiração de fragmentos residuais que podem causar pneumonia aspirativa dias depois.
Além disso, o episódio de hipóxia — mesmo breve — pode ter causado alterações neurológicas sutis que só um exame clínico identifica. Em vítimas idosas, o evento pode desencadear arritmias cardíacas nas horas seguintes. A recomendação universal dos protocolos de emergência é que a vítima seja avaliada no pronto-socorro ou por equipe do SAMU, independentemente da aparente recuperação completa no local.
Prevenção de Engasgos: Situações de Risco e Boas Práticas
A prevenção é a intervenção mais eficaz contra o engasgo, e grande parte dos casos ocorre em situações previsíveis: refeições apressadas, consumo de álcool durante as refeições, conversa e riso com a boca cheia, e oferta de alimentos inadequados para a faixa etária. Em crianças, os alimentos mais associados a engasgo fatal são uva inteira, salsicha em rodelas, castanhas, pipoca, bala dura e pedaços grandes de carne. Em adultos e idosos, destacam-se pedaços grandes de carne mal mastigados, próteses dentárias mal ajustadas e disfagia associada a doenças neurológicas.
- Corte alimentos em pedaços pequenos, especialmente para crianças e idosos
- Evite falar, rir ou andar enquanto mastiga
- Não ofereça alimentos redondos e duros a crianças menores de 4 anos
- Supervisione refeições de crianças pequenas e idosos com disfagia
- Evite consumo excessivo de álcool durante refeições
- Mantenha objetos pequenos fora do alcance de bebês
- Treine a equipe em primeiros socorros — em escolas, a Lei Lucas torna esse treinamento obrigatório
Para profissionais que atuam em ambientes de risco — escolas, creches, restaurantes, academias e indústrias —, o treinamento em desobstrução de vias aéreas deve ser periódico e prático. A finalidade dos primeiros socorros é justamente capacitar qualquer pessoa a agir nos minutos críticos antes da chegada do serviço de emergência. A 22Brasil oferece cursos presenciais e online com carga horária prática de até 70%, incluindo módulos específicos de desobstrução para adultos, crianças e bebês.
FAQ
A manobra de Heimlich pode ser realizada por qualquer pessoa sem treinamento médico?
Sim. A manobra de Heimlich é uma técnica de suporte básico de vida que pode e deve ser aplicada por qualquer pessoa que reconheça um engasgo grave, independentemente de formação na área da saúde. A definição de primeiros socorros abrange exatamente esse tipo de intervenção imediata por leigos treinados. No entanto, o treinamento prático aumenta significativamente a chance de sucesso e reduz o risco de lesão, pois corrige posição das mãos, força e ritmo — detalhes que não são intuitivos em uma situação de pânico.
Quantas compressões abdominais devem ser feitas na manobra de Heimlich?
Não há um número máximo definido. As compressões devem ser repetidas até que o objeto seja expelido, a vítima volte a respirar ou perca a consciência. Em treinamento, recomenda-se aplicar séries contínuas de compressões com ritmo de aproximadamente uma por segundo, sem pausa entre elas. Se a vítima ficar inconsciente, interrompa a manobra de Heimlich e inicie RCP imediatamente.
A manobra de Heimlich pode machucar a vítima?
Sim, a manobra pode causar lesões como fratura de costelas, laceração hepática ou esplênica e hematomas abdominais, especialmente em idosos, crianças e pessoas com fragilidade óssea. A incidência é baixa e o benefício de desobstruir a via aérea supera amplamente o risco de lesão — sem a manobra, a obstrução total leva à morte em minutos. O socorrista deve aplicar a força proporcional ao biotipo da vítima e, após o episódio, encaminhá-la para avaliação médica mesmo que não haja queixa de dor.
O que fazer se a manobra de Heimlich não funcionar?
Continue aplicando as compressões sem interromper. Se a vítima perder a consciência, deite-a em superfície rígida, acione o SAMU (192) e inicie RCP com compressões torácicas. A cada ciclo de ventilações, verifique visualmente a boca — se o objeto estiver visível, remova-o com o dedo em gancho. A RCP em vítima de engasgo pode expelir o corpo estranho pelas compressões torácicas e deve ser mantida até a chegada do socorro ou a reanimação da vítima.
A manobra de Heimlich é indicada para engasgo com líquidos?
Não. A manobra de Heimlich é indicada para obstrução por corpo estranho sólido. O engasgo com líquidos geralmente causa tosse e aspiração, e a conduta é incentivar a tosse e monitorar a respiração. Se a vítima de aspiração de líquido evoluir para parada respiratória, a conduta é RCP com ventilações de resgate, não compressões abdominais. A distinção entre obstrução sólida e líquida faz parte do treinamento de suporte básico de vida e evita intervenções inadequadas que podem piorar o quadro.

