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O que e crise epiléptica?

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Uma crise epiléptica acontece quando neurônios do cérebro disparam sinais elétricos de forma anormal, intensa e desorganizada, provocando alterações súbitas no comportamento, nos movimentos, na consciência ou nas sensações da pessoa. Entender o que é crise epiléptica vai muito além de reconhecer os espasmos musculares que costumam aparecer nas imagens populares do tema: existem diferentes tipos, com manifestações que variam de um simples “apagão” de segundos até convulsões generalizadas que exigem ação imediata de quem está por perto.

Para profissionais e estudantes da área da saúde — enfermeiros, técnicos de enfermagem, socorristas e condutores de veículos de emergência —, saber identificar e manejar corretamente uma crise epiléptica é uma competência fundamental. Erros comuns, como tentar segurar a língua da vítima ou contê-la à força, podem agravar a situação e colocar em risco tanto o paciente quanto o próprio socorrista.

Neste artigo, você vai entender os mecanismos por trás das crises epilépticas, os principais tipos descritos nos protocolos de atendimento pré-hospitalar, os sinais de alerta que indicam emergência real e as condutas corretas baseadas nas diretrizes mais atualizadas. É o conhecimento técnico que separa uma resposta eficaz do pânico — e que pode, literalmente, salvar uma vida.

O Que É uma Crise Epiléptica: Definição e Conceito

A crise epiléptica é um evento neurológico transitório causado por uma atividade elétrica anormal, excessiva e sincronizada de um grupo de neurônios no cérebro. Essa descarga desorganizada interrompe temporariamente o funcionamento normal do sistema nervoso central e pode se manifestar de várias formas: movimentos involuntários, alterações de consciência, sensações estranhas, comportamentos automáticos ou até perda total do contato com o ambiente. Para o socorrista e para o profissional da saúde, reconhecer uma crise em curso é fundamental, porque a conduta adequada pode evitar traumas secundários, aspiração e agravamento do quadro.

Como o Cérebro Funciona e Por Que as Crises Acontecem

Os neurônios se comunicam por meio de sinais elétricos e químicos regulados por um delicado equilíbrio entre neurotransmissores excitatórios (como o glutamato) e inibitórios (como o GABA). Quando esse equilíbrio se rompe — seja por lesão estrutural, alteração metabólica, febre alta, privação de sono, uso de drogas ou predisposição genética — um grupo de neurônios pode disparar de forma sincronizada e descontrolada. Essa “tempestade elétrica” é o substrato fisiopatológico da crise epiléptica e explica por que as manifestações clínicas dependem exatamente da região cerebral envolvida.

Crise Epiléptica e Convulsão São a Mesma Coisa?

Popularmente os termos são usados como sinônimos, mas tecnicamente não são. Convulsão refere-se especificamente às manifestações motoras (contrações musculares involuntárias, tremores e abalos) que acompanham algumas crises. Já crise epiléptica é o termo mais amplo e correto: engloba tanto as crises com componente motor (convulsivas) quanto as sem manifestação motora aparente, como as crises de ausência, em que a pessoa apenas “desliga” por alguns segundos. Toda convulsão epiléptica é uma crise, mas nem toda crise se apresenta como convulsão.

Tipos de Crise Epiléptica

A classificação internacional atual, proposta pela Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE), divide as crises conforme o ponto de origem no cérebro e o nível de consciência preservado. Conhecer os tipos é essencial para o atendimento pré-hospitalar, pois cada apresentação exige leitura clínica diferente.

Crises Focais (Parciais): Sintomas e Características

As crises focais começam em uma área específica de um dos hemisférios cerebrais. Podem ocorrer com consciência preservada (o paciente percebe tudo, mas não consegue controlar) ou com consciência prejudicada (confusão, olhar vago, automatismos como mastigar, esfregar as mãos ou repetir palavras). Os sintomas variam de acordo com a região: contrações em um lado do corpo, formigamentos, alucinações visuais, auditivas, olfativas ou sensações viscerais como “aperto no estômago”. Uma crise focal pode evoluir para uma crise bilateral tônico-clônica — informação valiosa quando se aciona o SAMU.

Crises Generalizadas: Tônico-Clônicas, Ausências e Outras

As crises generalizadas envolvem os dois hemisférios desde o início. A forma mais reconhecível é a tônico-clônica (antigo “grande mal”): a pessoa perde a consciência, cai, apresenta uma fase de rigidez muscular (tônica) seguida de abalos rítmicos (clônica), pode morder a língua, apresentar cianose e liberar esfíncteres. Já a crise de ausência (típica em crianças) dura poucos segundos: o paciente fica com olhar parado, não responde e retoma a atividade sem se lembrar do episódio. Existem ainda as crises mioclônicas (abalos rápidos), tônicas (rigidez sustentada) e atônicas (perda súbita do tônus, com queda).

Crise Epiléptica Única vs. Epilepsia: Qual a Diferença?

Ter uma crise não significa ter epilepsia. Uma crise única pode ser provocada por fatores agudos e reversíveis: hipoglicemia, febre alta em crianças, distúrbios eletrolíticos, intoxicações, traumatismo craniano ou abstinência alcoólica. Já epilepsia é o diagnóstico dado quando existem crises recorrentes não provocadas (duas ou mais separadas por mais de 24 horas) ou uma única crise com alta probabilidade de recorrência confirmada por exames.

Principais Causas e Fatores de Risco

Identificar a causa direciona o tratamento e ajuda a prevenir novas crises. As causas são divididas em grandes grupos.

Causas Estruturais, Genéticas e Metabólicas

  • Estruturais: AVC, traumatismo craniencefálico, tumores cerebrais, malformações corticais, cicatrizes de infecções prévias e sequelas de hipóxia perinatal.
  • Genéticas: mutações herdadas que alteram canais iônicos e receptores neuronais, comuns em síndromes epilépticas da infância.
  • Metabólicas: hipoglicemia, hiponatremia, hipocalcemia, insuficiência renal ou hepática, erros inatos do metabolismo.
  • Infecciosas: meningites, encefalites, neurocisticercose (importante causa no Brasil), neurossífilis e HIV.
  • Imunológicas: encefalites autoimunes que vêm sendo cada vez mais diagnosticadas.

Fatores de Risco para Recorrência de Crises

Após uma primeira crise, o risco de novo episódio aumenta em situações como: alteração no eletroencefalograma (EEG), lesão visível na ressonância, crise noturna, histórico familiar de epilepsia, privação crônica de sono, uso abusivo de álcool, má adesão a medicamentos e exposição a gatilhos como luzes estroboscópicas (em pacientes fotossensíveis). O controle desses fatores é parte essencial do plano terapêutico — veja mais em como evitar crise epiléptica.

Relação Entre COVID-19 e Crises Epilépticas

Estudos publicados desde 2020 mostraram que o SARS-CoV-2 pode desencadear crises em pacientes previamente saudáveis, especialmente em quadros graves com hipóxia, encefalopatia ou tempestade inflamatória. Em pessoas com epilepsia prévia, a febre, o estresse e alterações no sono durante a infecção também aumentam o risco de descontrole das crises. O achado reforça que qualquer agressão sistêmica ao cérebro pode ser um gatilho.

Sinais e Sintomas: Como Reconhecer uma Crise Epiléptica

Reconhecer uma crise em segundos é o que separa um atendimento eficaz de um agravamento evitável. A apresentação depende do tipo, mas há padrões claros.

Sintomas Antes da Crise (Aura)

A aura é, na verdade, o início da própria crise focal e funciona como um “aviso” que alguns pacientes percebem antes da generalização. Pode se manifestar como: sensação de déjà vu, medo súbito, cheiro ou gosto estranho, formigamento em uma parte do corpo, náusea, alterações visuais (luzes, borramento), tontura ou sensação de “algo subindo do estômago”. Nem todo paciente tem aura, mas quem tem aprende a usá-la para procurar um local seguro.

Sintomas Durante e Após a Crise

Durante uma crise tônico-clônica: perda súbita da consciência, queda, rigidez corporal, abalos rítmicos dos quatro membros, salivação intensa (com aspecto de “espuma”), possível mordedura de língua e liberação de esfíncteres. A duração habitual é de 1 a 3 minutos. Após a crise vem o período pós-ictal: sonolência profunda, confusão mental, dor de cabeça, dores musculares, amnésia do episódio e às vezes agitação. Esse período pode durar de minutos a horas e exige observação atenta.

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O Que Fazer ao Presenciar uma Crise Epiléptica

Este é o momento em que o conhecimento em primeiros socorros muda desfechos. A conduta correta é simples, mas exige treino — e infelizmente ainda circulam muitos mitos perigosos. Se você quer entender melhor a base do atendimento leigo, vale revisar qual a finalidade dos primeiros socorros.

Passo a Passo: Primeiros Socorros Corretos

  1. Mantenha a calma e cronometre o início da crise — o tempo é informação clínica valiosa.
  2. Proteja a cabeça da vítima colocando algo macio embaixo (roupa dobrada, mochila).
  3. Afaste objetos ao redor que possam causar trauma (móveis, vidros, escadas).
  4. Afrouxe roupas apertadas, especialmente no pescoço.
  5. Não contenha os movimentos. Deixe a crise seguir seu curso natural.
  6. Ao término dos abalos, coloque a pessoa em posição lateral de segurança (PLS) para evitar aspiração de saliva ou vômito.
  7. Permaneça ao lado durante o pós-ictal, conversando com calma. A confusão é temporária.
  8. Registre a duração, os movimentos observados e as circunstâncias — essas informações ajudam o médico.

O Que Nunca Fazer Durante uma Crise

  • Nunca coloque nada na boca da vítima — nem colher, nem pano, nem os dedos. É o mito mais perigoso: causa fratura de dentes, obstrução das vias aéreas e mordidas graves no socorrista.
  • Não segure braços e pernas tentando parar os movimentos — isso pode causar luxações e fraturas.
  • Não jogue água no rosto da pessoa.
  • Não ofereça água, comida ou remédio antes da recuperação total da consciência.
  • Não faça respiração boca a boca durante os abalos — a via aérea está fechada pela contração.

Quando Chamar o Serviço de Emergência

Acione o SAMU (192) ou o Corpo de Bombeiros (193) imediatamente quando: a crise durar mais de 5 minutos (estado de mal epiléptico), houver crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas, for a primeira crise da vida da pessoa, ocorrer durante a gestação, dentro d’água, após trauma, ou se a vítima tiver diabetes, estiver ferida ou não retomar a respiração normal após os abalos. Lembre-se: quem se depara com essas situações em escolas tem obrigação legal de saber agir — leia sobre a Lei Lucas em primeiros socorros.

Diagnóstico: Como o Médico Identifica uma Crise Epiléptica

O diagnóstico é fundamentalmente clínico. O neurologista reconstrói o evento a partir do relato do paciente e, principalmente, das testemunhas — por isso o socorrista bem treinado que descreve corretamente o episódio contribui diretamente para o diagnóstico. História pregressa, uso de medicamentos, consumo de álcool e drogas, padrão de sono e antecedentes familiares completam a avaliação.

Exames Utilizados: EEG, Ressonância Magnética e Outros

  • Eletroencefalograma (EEG): registra a atividade elétrica cerebral e pode identificar descargas epileptiformes. Pode ser feito em repouso, com privação de sono ou por 24 horas (Vídeo-EEG).
  • Ressonância magnética de crânio: exame de imagem mais sensível para detectar lesões estruturais como tumores, malformações e esclerose hipocampal.
  • Tomografia computadorizada: útil na emergência para descartar sangramentos e traumas.
  • Exames laboratoriais: glicemia, eletrólitos, função renal e hepática, toxicológico.
  • Punção lombar: quando há suspeita de infecção do sistema nervoso central.

Tratamento das Crises Epilépticas

O objetivo do tratamento é controlar totalmente as crises com o mínimo de efeitos colaterais. Cerca de 70% dos pacientes atingem controle satisfatório apenas com medicamentos.

Medicamentos Antiepilépticos: Como Funcionam

Os fármacos antiepilépticos (FAEs) agem estabilizando as membranas neuronais, potencializando a inibição gabaérgica ou reduzindo a excitação glutamatérgica. Entre os mais utilizados estão carbamazepina, valproato de sódio, fenitoína, fenobarbital, lamotrigina, levetiracetam, topiramato e clobazam. A escolha depende do tipo de crise, idade, gênero, comorbidades e interações. O tratamento é individualizado, iniciado em monoterapia e ajustado gradualmente. Nunca se deve interromper a medicação por conta própria — a suspensão abrupta é uma das principais causas de estado de mal epiléptico.

Outras Opções Terapêuticas: Cirurgia, Dieta Cetogênica e Neuroestimulação

Para os cerca de 30% de pacientes com epilepsia refratária (sem controle com dois FAEs bem indicados), existem alternativas:

  • Cirurgia de epilepsia: remoção da zona epileptogênica, com excelentes resultados em casos selecionados como esclerose mesial temporal.
  • Dieta cetogênica: rica em gorduras e pobre em carboidratos, especialmente eficaz em crianças com epilepsias graves.
  • Estimulação do nervo vago (VNS): dispositivo implantado que envia estímulos elétricos periódicos.
  • Estimulação cerebral profunda (DBS) e neuroestimulação responsiva (RNS): tecnologias mais recentes para casos refratários.

Qualidade de Vida e Convivência com a Epilepsia

A epilepsia não é sinônimo de incapacidade. Com tratamento adequado, a maioria dos pacientes leva vida escolar, profissional e social plena. Para aprofundar o tema, leia quem tem crise epiléptica vive muito tempo.

Restrições, Cuidados do Dia a Dia e Suporte Emocional

Alguns cuidados são universais: sono regular de 7 a 9 horas, evitar álcool em excesso, manter horários rigorosos da medicação, controlar o estresse e evitar gatilhos individuais conhecidos. Existem restrições legais para dirigir (habitualmente é exigido pelo menos 1 ano sem crises) e para atividades de risco como mergulho, trabalho em altura e operação de máquinas pesadas. Nadar, praticar esportes e cozinhar são atividades permitidas com adaptações — de preferência acompanhado. O suporte psicológico é parte integrante do tratamento: ansiedade e depressão são comorbidades frequentes e devem ser tratadas. Manter em casa um kit de primeiros socorros bem montado e orientar familiares sobre a conduta correta também traz segurança para o paciente e para quem convive com ele.

Perguntas Frequentes

Toda crise epiléptica significa que a pessoa tem epilepsia?

Não. Uma crise única, especialmente quando provocada por um fator identificável (febre, hipoglicemia, intoxicação, trauma), não caracteriza epilepsia. O diagnóstico exige crises recorrentes não provocadas ou uma crise única com alto risco de recorrência confirmado por exames.

Crise epiléptica pode matar?

É raro, mas possível. As principais situações de risco são: estado de mal epiléptico (crise com mais de 5 minutos), traumas graves durante a queda, afogamento, aspiração de conteúdo gástrico e a chamada SUDEP (morte súbita inesperada na epilepsia), mais comum em pacientes com crises noturnas mal controladas. Por isso o atendimento correto e o tratamento contínuo são fundamentais.

Qual a diferença entre crise epiléptica focal e generalizada?

A crise focal começa em uma área específica de um hemisfério cerebral e os sintomas refletem essa região (movimentos de um lado do corpo, sensações localizadas). A generalizada envolve os dois hemisférios desde o início, com alteração da consciência e, geralmente, manifestações motoras bilaterais.

Quanto tempo dura uma crise epiléptica?

A maioria dura entre 1 e 3 minutos. Crises de ausência podem durar apenas alguns segundos. Quando ultrapassam 5 minutos, configuram estado de mal epiléptico — emergência médica que exige acionamento imediato do SAMU.

A crise epiléptica tem cura?

Depende da causa. Crises provocadas por fatores reversíveis (metabólicos, febre) desaparecem com o tratamento da causa. Já a epilepsia pode ser controlada em cerca de 70% dos casos com medicação, e casos selecionados podem ser curados por cirurgia. Algumas síndromes epilépticas infantis desaparecem espontaneamente na adolescência.

É seguro colocar algo na boca de quem está tendo uma crise?

Não. Esse é o mito mais perigoso no atendimento a crises. Colocar objetos, dedos ou panos na boca pode fraturar dentes, obstruir as vias aéreas, causar mordidas graves no socorrista e não impede a mordedura da língua — que, quando ocorre, acontece nos primeiros segundos da crise.

Quais medicamentos são usados para tratar crises epilépticas?

Os mais comuns são carbamazepina, valproato de sódio, lamotrigina, levetiracetam, fenitoína, fenobarbital, topiramato e clobazam. A escolha é sempre médica e depende do tipo de crise, idade e condições clínicas. Automedicação e suspensão abrupta são absolutamente contraindicadas.

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Carlos Rodrigues é enfermeiro emergencista, pós-graduado pelo Centro Universitário São Camilo, especialista em APH Traumático e instrutor credenciado pela Health & Safety Institute (HSI) nos Estados Unidos — certificado para ministrar os cursos de BLS (Basic Life Support), Primeiros Socorros e EMR (Emergency Medical Responder), qualificações reconhecidas internacionalmente como padrão de excelência no cuidado pré-hospitalar. Com 9 anos de experiência e mais de 2.500 alunos formados, atuou em ocorrências de grande impacto como os alagamentos no Rio Grande do Sul, o acidente da Voepass em Vinhedo e o acidente da TAM em 2007 — o maior da história da aviação brasileira. Treina instituições como Instituto Cacau Show, Academia IronBerg e Exército Brasileiro, e é presença recorrente na mídia nacional, com participações na TV Gazeta, RedeVida, Rit TV e Rede Brasil.

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